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ZeroHora - Mais produtividade e satisfação: empresas implementaram semana de trabalho com 4 dias

Jornada reduzida é aprovada tanto pelos funcionários quanto pelos empresários, que notam maior engajamento das equipes



Encontro anual da Shoot, em janeiro de 2023; agência criada em Porto Alegre adotou a jornada de trabalho de quatro dias semanais Shoot / Divulgação


Testada em diferentes países do mundo, a jornada de trabalho com quatro dias semanais já é uma realidade entre algumas empresas brasileiras e deve ser ainda mais difundida a partir de junho, quando terá início um estudo para a aplicação do modelo no Brasil. A iniciativa será desenvolvida pela organização sem fins lucrativos 4 Day Week Global e pelo Boston College, em parceria com a Reconnect Happiness at Work, uma companhia de São Paulo especializada em felicidade corporativa e liderança positiva.


O modelo, que tem como objetivo aumentar a produtividade e melhorar a saúde mental e o bem-estar dos colaboradores, é aprovado tanto pelos funcionários quanto pelos empresários, que notam maior engajamento em suas equipes. No Rio Grande do Sul, a agência de comunicação Shoot, criada em Porto Alegre, adotou a redução da jornada no final de janeiro de 2022, após realizar alguns testes no ano anterior.


Luciano Braga, sócio fundador da Shoot, explica que, inicialmente, optaram por fechar toda a empresa na sexta-feira, mas perceberam que a medida não era a mais adequada. Então, decidiram dividir os funcionários em duas equipes: o setor de atendimento trabalha de segunda a quinta-feira, enquanto o de criação atua entre terça e sexta-feira. Desta forma, os clientes não ficam nenhum dia sem suporte.


Após quase um ano e meio da implementação do modelo, Braga garante que a empresa consegue entregar os mesmos resultados de quando adotava a jornada de cinco dias e que foi possível constatar que a produtividade permanece igual ou é maior do que era antes. Além disso, em uma pesquisa com os clientes, a agência confirmou que a entrega continua com a mesma qualidade e ainda mais organizada.


— Tem sido ótimo, não há nada a reclamar. No panorama geral, todo mundo está mais feliz, descansado, com mais qualidade de vida e percebendo um aumento de autogestão de foco. Nós organizamos o processo de trabalho para caber em quatro dias e as pessoas também ficaram mais focadas e organizadas, porque sabem que não podem deixar as demandas para outros dias, então conseguem trabalhar melhor hoje do que antes.


Fundada em 2010, a Shoot atualmente conta com 12 funcionários, que estão espalhados pelo Brasil e pela Europa, portanto, atuam de forma 100% online. De acordo com o sócio-fundador, a redução da jornada não impactou no salário dos colaboradores, nem em um aumento da demanda nos outros dias trabalhados.


Braga ressalta que a agência sempre esteve atenta às mudanças no formato de trabalho que tivessem como objetivo a inovação e a quebra de paradigmas. Também aponta que sempre houve uma preocupação com a saúde mental e o cansaço dos colaboradores — aspectos que levaram à adoção do modelo de quatro dias semanais.


— Esse modelo veio realmente para dar mais qualidade de vida, para que as pessoas cheguem com saúde, disposição e tenham mais tempo para cuidar da vida pessoal. E, pelo que percebo, todo mundo está curtindo e não voltaria atrás. Então, a avaliação é superpositiva, não nos arrependemos, pensamos até que deveríamos ter feito isso antes — comenta.



Equilíbrio entre vida pessoal e profissional


Para a redatora sênior da Shoot Manuella Graff, 31 anos, a experiência de ter as segundas-feiras “off” só tem pontos positivos. Colaboradora da empresa há quase sete anos, ela afirma que as lideranças têm muito cuidado em calcular o tempo de trabalho que cada tarefa demanda, para que os funcionários não trabalhem mais horas do que devem. Mesmo assim, todos têm flexibilidade e autonomia para organizar sua rotina de trabalho.


Ao compartilhar sua experiência pessoal, a redatora confessa que tem muita dificuldade para se concentrar, ser produtiva e deixar de procrastinar. Apesar disso, descreve a oportunidade como um processo de autoconhecimento, em que pode perceber que é possível se adaptar a novos modelos de trabalho que sejam mais ricos, produtivos, focados e que gerem mais prazer.


— É impressionante, mas o trabalho não ficou pesado em quatro dias. Não só pelo cuidado de quem gerencia as pautas, mas também porque está tudo muito organizado. Acho que o modelo nos leva a trabalhar de forma muito mais focada, porque sabemos que só tem quatro dias e que as tarefas são importantes, então conseguimos nos dedicar mais — opina.


Manuella relata que, nos primeiros meses, foi desafiador entender que não precisava trabalhar e lidar com uma certa “culpa” de fazer outras coisas não relacionadas ao trabalho durante um dia útil inteiro. Agora, a segunda-feira é considerada um dia de organização para começar a semana da melhor forma possível na terça:


— Posso arrumar a casa, lavar roupa, andar de bicicleta, fazer exercícios, descansar, fazer atividades de lazer. São só vantagens e traz uma satisfação maior em relação ao trabalho saber que a empresa te possibilita viver essa folga de uma forma muito segura. Isso acaba se tornando um incentivo maior para voltar a trabalhar, porque a produtividade realmente aumenta.


Hoje, a redatora afirma que não consegue se imaginar trabalhando novamente cinco dias por semana em outra empresa. Mas garante que, se acontecesse, incentivaria muito que ao menos testassem a redução, pois considera o modelo muito eficiente para a área de comunicação e criação.



Experiência semelhante em São Paulo


Já a empresa Vockan Consulting, de São Paulo, começou o projeto da semana com quatro dias em novembro de 2022 e, em seguida, se filiou à 4 Day Week Global. Ao contrário da Shoot, a companhia paulista optou inicialmente por realizar o teste apenas com uma parte dos funcionários. O setor escolhido foi o de suporte, que presta atendimento aos clientes e dá apoio para toda a rede de consultores da empresa, representando 50% da equipe administrativa da companhia.


Para avaliar os resultados do modelo, a Vockan realizou uma pesquisa com os colaboradores participantes, constatando um aumento geral da satisfação — que engloba pontos como gestão do tempo, saúde física e mental, e realização de tarefas pessoais — de 54% para 70%. Também houve crescimento na percepção sobre a qualidade de vida, de 57% para 86%, e elevação nos níveis de felicidade (43%) e de produtividade (23%) dos funcionários.


Fabrício Oliveira, CEO da empresa, conta que a Vockan foi criada em setembro de 2022, depois que a multinacional onde trabalhava deixou de operar no Brasil. A ideia de adotar a redução da jornada, segundo ele, surgiu a partir da sua vontade de estabelecer uma cultura inovadora e humanizada na companhia, e ganhou força quando percebeu que o modelo já estava sendo implementado em outros países:


— Minha maior preocupação era que as pessoas entrassem em burnout, então, precisava fazer alguma coisa para colaborar com a saúde mental delas. A ideia era ter uma gestão mais humanizada para elas conseguirem desconectar e ter um dia da semana para cuidar de si mesmas, porque as pessoas precisam disso.


No início, houve desconfiança entre os colaboradores: muitos perguntavam qual seria a contrapartida para um dia extra de folga. De acordo com Oliveira, a Vockan não reduziu os salários e benefícios nem aumentou a carga horária dos quatro dias trabalhados.


— Posso afirmar que não tive custo maior e que a produtividade aumentou. O sistema está se provando muito sustentável. Em março, decidimos adotar oficialmente o modelo na empresa, mas será de forma gradual. Agora, os setores de recursos humanos, administrativo e financeiro estão passando pelo piloto. Precisamos entender as áreas e ver como cada uma se comporta nesse formato. A ideia é que, até o final do ano, toda a empresa esteja nesse modelo — destaca o CEO.


Além dos bons resultados na equipe, Oliveira aponta outros dois aspectos relevantes que a redução de jornada trouxe para a empresa: a atração e a retenção de talentos. O CEO garante que é possível aplicar o modelo em companhias de diferentes segmentos e tamanhos, mas que isso precisa ser feito com vontade e planejamento. Também indica que as empresas interessadas em adotar a medida iniciem o processo aos poucos, com uma área de cada vez, em função das variáveis.


— Tem que ter vontade de fazer, precisa abrir a cabeça para entender que não é um aumento de custo e que a produtividade vai aumentar. Eu estou doando e recebendo, mas foi automático o engajamento de todos e é totalmente possível para qualquer empresa, desde que seja feito com avaliação e planejamento — enfatiza.



Legislação brasileira não cita o novo modelo


A advogada trabalhista Marceli Brandenburg Blumer, sócia do escritório Messias e Brandenburg Blumer Advogados, esclarece que não há nenhuma previsão legal que proíba a adoção da semana de trabalho com quatro dias. A legislação brasileira, segundo a especialista, prevê uma jornada diária máxima de oito horas, prorrogáveis por no máximo mais duas, além de casos específicos, como jornadas de 12 horas, com 36 horas de folga. Ou seja, não há empecilhos para que modelos menores sejam implementados.


Para evitar problemas, Marceli recomenda que, antes de adotar o modelo de forma definitiva, a empresa faça um período de teste. Nesses casos, é possível fazer um “contrato de treinamento”, que é o mesmo feito quando o funcionário inicia em um novo cargo, de até dois meses. Após o período, se a equipe estiver a adaptada, a jornada pode ser reduzida ou, caso contrário, pode voltar ao normal.


— Esse contrato não invalida o anterior, ele rege por aquele determinado tempo, assim como um período de experiência. Naquele período, as normas de trabalho são aquelas. Se não se adaptar, volta ao anterior. Se conseguir, o contrato temporário passa a vigorar como um aditivo contratual, com novas regras — esclarece a especialista.


Esse documento tem que especificar quais os critérios de avaliação, o que se espera do funcionário em termos de produtividade, o período de vigência e em quais horários e dias esse colaborador vai trabalhar. Uma possível redução do salário ou compensação das horas de folga durante os outros dias da semana também precisam estar descritas no contrato — essas opções, entretanto, não seguem o modelo que é previsto no estudo que será aplicado no Brasil.


Marceli ressalta que, ao implementar a medida de redução da jornada sem compensação, o valor da hora do funcionário aumenta, sendo assim, caso haja necessidade de pagar hora extra, por exemplo, esses valores também serão maiores.


— Existe a opção de adotar o regime de compensação. Assim, a pessoa trabalha 10 horas durante os quatro dias para compensar a folga. Isso é legal, desde que não ultrapasse as 10 horas diárias e haja um acordo de compensação. Particularmente, acho a experiência de reduzir a jornada de trabalho bem interessante, mas se a empresa realmente quer adotar, tem que documentar tudo para evitar passivos futuros — aponta.

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